#2 ARENA DOS FILMES ESPECIAL MAD MAX

Um podcast especial, dedicado apenas aos filmes que compõe a franchise Mad Max. Neste podcast falamos em detalhe sobre o começo da franchise com o filme Mad Max, depois com Mad Max – Road Warrior, o terceiro filme Mad Max, Beyond Thunderdome e por fim o seu regresso um pouco inesperado, mas muito bem vindo com Mad Max Fury Road.

Fica aqui um artigo de opinião escrito por Nuno Aboim:

Trinta e seis anos estão entre o original Mad Max “As Motos da Morte” e o novo Mad Max “Estrada da Fúria”. Numa época em que vivemos pejados de remakes e reboots de franchises populares, este é um período de tempo que considero mais do que aceitável para o ressuscitar de uma personagem e temática emblemática do cinema. E meu deus como é inteiramente bem-vindo.

Pelas mãos do mesmo autor/realizador, George Miller com o seu novo Mad Max, consegue trazer mais criatividade, originalidade e frescura do que 7 Fast and Furious e 2 Avengers todos juntos e misturados. A diferença de tempo entre a trilogia original onde o australiano Mel Gibson ganhou o seu estatuto de estrela há trinta anos atrás e o novo Mad Max, entregue às mãos de um intenso Tom Hardy, faz com que para muita gente seja um novo filme completamente despegado dos seus antecessores e facto é que o resultado final é de um filme que não tenta viver das conquistas passadas mas apresenta-se como um novo e fresco lutador no ring do sucesso. O resultado é que acaba por satisfazer novas vindas à história do atormentado Max e do mundo louco em que vive assim como aqueles que se lembram da wasteland e do thunderdome dos anos 80. Não é apenas um reset, é uma nova história que não se preocupa se esse mundo já é conhecido ou não pelo espetador nem tão pouco perde tempo na caraterização histórica das suas personagens, usa sim, de uma forma inteligente e subtil o compasso rápido dos acontecimentos do filme para pavimentar o conhecer das suas histórias pessoais que são tão estranhas e bizarras como o mundo em que habitam.

Max narra os primeiros segundos do filme como quem abre a porta e dá as boas vindas à Casa da Loucura numa feira popular. O peso das palavras tenebrosas dão um breve vislumbrar das suas cicatrizes pessoais e o estado mental em que se encontra como consequência desses acontecimentos. Sozinho num deserto de poeira e monóxido de carbono libertado pelos loucos veículos que caracterizam o estado inóspito de uma sociedade de sobrevivência, Max vive um dia de cada vez desafiado pela insanidade de não ter rumo. Nos primeiros minutos é capturado por um grupo de cultistas manipulados por insano Imortaan Joe que o usam como um “Saco de Sangue” para transfusões sanguíneas, pois ele é O negativo, o que faz dele um dador universal. Ao escapar desse grupo, depara-se com um conjunto de foragidos que a força das circunstâncias levam-nos a juntar numa corrida para a fuga quando três grupos de guerra os perseguem incessantemente usando toda a sua força e recursos.

Nada é explicitamente explicado ao espetador. Todos os pormenores de informação estão presentes em cada fotograma, gesto, som ou até mesmo grunhido e se este não estiver atento poderá não perceber esses pormenores que são a cola dos diferentes momentos do enredo. Incrivelmente inteligente e até artístico, a condução do filme é toda ela caótica na sua imagem mas manipulativa e bem ordenada para um fluxo de ideia e compreensão que é essencial para se capturar a essência e a mensagem subtil que este filme transporta aos seus ombros.

Ao contrário de filmes do mesmo género, em que grupos opostos se juntam para atingirem o seu objetivo final, não há uma aproximação humana que vá gerar intimidade, amizade, amor e aceitação. É um acordo de conveniência em que aos poucos se torna numa arma afiada e implacável contra os seus perseguidores.

Charlize Theron, a líder do grupo foragido, Imperatriz Furiosa, é literalmente furiosa na sua determinação atitude incansável de ultrapassar todos os obstáculos. É um tour de force que com o seu focus acaba por arrastar todos na sua causa e assume claramente o papel de protagonista do filme. Para muitos isto pode ser um “contra”, pois o filme chama-se Mad Max e a uma dada altura é nítido que o protagonismo não recai nos ombros dele mas sim nos dela. Para mim não foi um contra. Foi um gesto de mestre que honra o histórico de 30 anos e deu mais força à personagem desempenhada por Tom Hardy. Max é um vagueante com a sua própria agenda. Única determinação é sobreviver e simplesmente continuar o seu caminho seja este qual for. Foi a empatia da história de redempção que o fez render aos objetivos de Furiosa mas isso não o desvia do que sente que deve fazer, mas até encerrar esse capitulo estará com todo o seu empenho na sua causa até novamente “fazer o pisca” e voltar à estrada. Esse é o Max que conhecemos nos filmes anteriores e é o Max que se constrói ao longo de 119 minutos e confirma-se ao minuto 120.

George Miller constrói um mundo que tem tanto de insano como de real. Os cenários, a utilização da luz que durante momentos de dia ou de noite, o contraste das cores escaldantes do terreno desolado para um gélido azul da noite são como pinceladas de arte numa tela que expõe uma obra de arte plástica moderna que na sua fealdade se torna belo e cativante. Duas horas de poeira e amarelo-torrado, podem perfeitamente ter sido quatro horas que simplesmente não cansava. As personagens, o seu mundo, a sua caraterização física representativa da agressividade de uma sociedade lapidada pela fome, sede, fanatismo, violência e fanatismo são absolutamente fantásticas sem se saber muito quase nenhuma. Todas têm o seu lugar e todas cumprem a sua função sem necessidade de explicar os comos e os porquês, pois o desenrolar da ação se encarrega disso. É preciso ser-se um pouco louco para se entender esta loucura e disso nenhum espectador tenha dúvidas disso. Aqueles que vão ver o filme a contar com uma história “de régua e esquadro” onde tudo é matematicamente encaixado com um background explícito que o esqueça desde já. Ou entramos no buggy de areia alimentado por óxido nitroso a alta velocidade e aceitamos cada metro percorrido com um sorriso louco na cara ou vamos ser os que estão acorrentados na sua traseira a apanhar o pó. É um mundo fácil de acreditar que existe, são personagens loucas demais para não serem possíveis de existir, é algo que me faz ter muito medo. Muito mesmo. Não há maior terror no planeta que a raça humana e esta sem regras não conhece limites na sua insanidade. Se somos todos loucos não será o bom senso e a razão o fora do normal?

São 120 minutos non-stop desde o primeiro momento. As sequências de ação são como maravilhosas coreografias de um bailado clássico onde tiaras são substituídas por mascaras de guerra e tutus por corpos pintados fantasmagoricamente num encontro de forças sempre a alta velocidade. Os embates são danças violentas que são tão belas na sua forma que é impossível desviar o olhar por um segundo que seja. No espectro cinematográfico preenchido por super heróis e robots gigantes onde a ação é a personagem principal posso-vos dizer que 10 minutos do Mad Max nos seus embates de estrada geraram mais emoção e entusiasmo em mim do que 2 horas desses filmes. Não é tingido com “smart puns” e piadas de quebrar a tensão. É duro. É real. Faz com que tudo sejam incrivelmente credível. Todos estão cientes que estão entregues na mão do acaso e que a morte espreita para aparecer a qualquer momento. Mad Max é um filme duro e violento, mas retrata a violência com uma subtileza de grande mestria escusando-se de expor gore como elemento de choque. Não sua esse subterfugio porque não sente essa necessidade “fácil” usada em tantos outros filmes do mesmo “género”. É um mundo violento que não precisa de esvisceras espalhadas no ecrã para chocar o seu espetador e a utilização da camara nesses momentos é um momento de honra que me faz tirar o chapéu ao senhor George Miller.

Em resumo, Mad Max é uma obra de arte e tal como muitas penduradas nos melhores museus do mundo não é para todos. Há quem vá entender a sua mensagem e trabalho e há quem veja apenas rabiscos de tinta numa tela branca. Há quem se mova emocionalmente e há quem seja indiferente. O gosto é uma emoção humana que é subjetiva mas o facto é incontornável e é por isso que são classificados como obras de arte de referência e no meu caderno, Mad Max: Estrada da Fúria, é uma dessas obras de referência tanto como o seu antecessor de 79 foi. Fresco, intenso, original e absolutamente brilhante. Uau…e estou a falar de um remake/reboot. As voltas que o mundo dá…

Eduardo Cancela

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